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Os materiais poliméricos são considerados fundamentais no progresso do consumo e satisfação dos clientes, sendo integrante da rotina diária humana. Eles são produzidos e adquiridos em massa, possuem um baixo custo e são um tanto quanto duradouros quando comparados com outros materiais. Mas o pós-uso, principalmente o descarte incorreto, é o que vem causando preocupações ambientais.

Embalagens e outros objetos de plástico foram e continuam sendo depositados em lugares inadequados, como por exemplo lixões, sistemas de drenagem e a céu aberto, permanecendo no meio ambiente (solo, água e ar) por muitos anos e sendo facilmente transportados por longas distâncias por meio de processos hidrodinâmicos e correntes oceânicas.

Em termos de agentes causadores de impactos  à saúde humana a ambiental  a  Organização das Nações Unidas (ONU),  considera a poluição plástica como uma das principais. Estimativas demonstram que 75% do montante de plástico produzido é resíduo, 80% da poluição plástica em oceanos teve origem em terra e em torno de 100 milhões de toneladas de plásticos já se tornaram poluentes, tanto marinho como em superfícies terrestres. Assim, mesmo que já se tenha realizado campanhas de conscientização e redução do consumo, além de substituição de matérias-primas tóxicas por outras, o passivo ambiental criado é imensurável.

Além desta poluição primária, os plásticos tendem a se fragmentar, transformando-se em partículas menores e extremamente pequenas, como os microplásticos (MP) e nanoplásticos (NP). Esse fracionamento ocorre por meio de diversos fatores ambientais como radiação UV, mudanças de temperatura, ação das ondas, contato com contaminantes, umidade, presença de oxigênio e também pelas propriedades físico-químicas dos polímero(GESAMP, 2015).

Nos últimos anos, os MP se tornaram assunto emergente para cientistas, políticos e população em geral. A alta ocorrência de plásticos nos oceanos já foi constatada e este foi o meio em que as pesquisas iniciaram. Os primeiros resultados mostraram que os detritos se tornam cada vez mais fontes ameaçadoras para a vida, principalmente a aquática, pois alteram a migração e reprodução de espécies, destroem seu habitat, tornam-se vetores de transporte para a introdução de espécies não nativas, matam as que os ingerem em grandes quantidades e causam obstrução no trato digestivo de animais, impedindo-os de se alimentarem. Somando-se a isto, estudos incipientes já reportaram a presença de MP em amostras de alimentos, de ar e na água, resultando no questionamento sobre os efeitos da ingestão pelos seres humanos e incitando a investigação sobre este assunto.

Os diversos aditivos utilizados na produção dos plásticos possuem efeitos prejudiciais à saúde e os fragmentos plásticos podem estar absorvendo ou adsorvendo outros contaminantes orgânicos do meio, possivelmente aumentando ainda mais a toxicidade. Em relação aos recursos hídricos, estudos revelam a presença dos fragmentos plásticos em ambientes aquáticos de água doce, em água tratada, além da presença na água engarrafada. Logo, as inferências sobre os potenciais efeitos sobre a saúde humana se fazem urgentes, afinal ingerimos água diariamente

Desta forma, os microplásticos podem ser considerados um poluente emergente do ambiente marinho, pois vem degradando e interferindo drasticamente no desenvolvimento e comportamento da biota aquática.

Quando disponiveis no ambiente, os plásticos podem interagir com os organismos principalmente por enredamento ou ingestão e ambas as situações muitas vezes resultam em lesões severas e crônicas. O enredamento pode prejudicar a mobilidade, definitivamente quando os animais ficam presos e não conseguem se mover, ou parcialmente quando algum resíduo fica aprisionado no corpo. Por exemplo, canudos que ficam presos nas narinas de tartarugas, lacre de garrafas PET (anel) que ficam presos principalmente na boca ou bico em toninhas, golfinhos e garças. Ademais, podem causar feridas, infecções, arranhões e deixar sequelas e cicatrizes.

Já a ingestão de MP pode ocasionar lesões no trato digestivo, uma vez que ele permanece ali, bem como obstruções e até óbito. Em torno de 800 espécies já foram identificadas com esse poluente dentro do organismo. A fotossíntese, o crescimento das algas, atividades alimentares do zooplâncton, sufocamento e adoecimento de recifes e corais também são apontados como impactos ambientais negativos da presença de MP nos oceanos.

Um resíduo plástico de 99,57 cm² e 12,77 g foi encontrado dentro do sistema digestivo de um golfinho (Coryphaena hippurus), nadante do oceano atlântico, a cerca de 300 milhas da costa de Areia Branca/RN. Este resíduo estava ocupando cerca de 80% do estômago e levou o animal à desnutrição e à morte (MENEZES et al., 2019). No atlântico norte, um estudo demonstrou que, anualmente, cerca de 82,9 % das baleias ficaram enroscadas em resíduos/equipamentos de pescas encalhados, pelo menos uma vez, 59% mais de uma vez e 25,9% foram feridas e apresentaram novas cicatrizes (WOODS; RØDDER; VERONES, 2019).

Uma análise em 288 aves demonstrou que em torno de 13% possuíam MP dentro do estômago. Os autores destacam que as gaivotas costumam regurgitar detritos, logo os resultados demonstram uma pequena parcela de ingestão e uma das maiores fontes de ingestão são os resíduos disponíveis no solo, como em aterros sanitários sem cobertura (BASTO et al., 2019).

Os componentes químicos também podem ser tóxicos afetando o sistema imunológico e reprodutivo. As partículas de MP podem alterar a funcionalidade das células principalmente por serem capazes de atravessar a membrana citoplasmática e interagir com os sítios de ação. A fim de entender melhor as interações, estudos em peixes demonstraram que os MP podem causar danos severos, como desregulação endócrina, estresse hepático e oxidativo, alterações hormonais (BARBOZA et al., 2018) além de causar ainda danos ao DNA, respostas inflamatórias, carcinogenicidade, mutagenicidade, reprodução, sensibilização, toxicidade aguda e crônica (JEONG; CHOI, 2019; PROKIĆ et al., 2019).

É evidente que os seres humanos estão expostos constantemente aos MPs. As fontes de captação decorrem através da ingestão de alimentos e bebidas contaminadas ou do ar que respiram. Mediante tamanha exposição, diversos estudos estão sendo realizados para estudar os possíveis riscos à saúde e, percebe-se que há mais estudos sobre a ingestão de MPs do que sobre a inalação. Na maioria das análises a exposição aos MPs gerou estresse oxidativo e inflamação local, no entanto, as metodologias precisam ser padronizadas para complementar àqueles que não apresentaram alterações clínicas. Embora nenhum estudo em humanos tenha sido realizado, os estudos executados em modelos in vitro e in vivo já demonstram efeitos adversos que poderiam se extrapolados aos humanos. Entretanto, mais estudos são necessários para obter um melhor embasamento teórico sobre possíveis riscos ou doenças aos humanos.

 

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